07 Setembro, 2010

os homens que tinham medo de música

Para o historiador Eric Hobsbawn, a contestação também é uma forma de patriotismo. Patriotas seriam aqueles que mostram seu amor pelo país desejando renová-lo pela reforma ou pela revolução (Nações e nacionalismos desde 1780).

Mas para a ditadura militar no Brasil, ser patriota significava ficar caladinho diante do regime opressor que não gostava de ser criticado. Era a época do lema “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”. Muitos músicos denunciavam a repressão da liberdade. Os pitbulls da Abril, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, chamam o partido do governo de Petralhas e Lula de anta com todo o afeto que se encerra. Há 40 anos, eles não diriam isso nem em pensamento. Talvez fizessem uma canção.

Em 1966, A Banda, de Chico Buarque, dividiu o primeiro prêmio no Festival de Música Popular da Record (na era pré-Edir Macedo) com Disparada, de Geraldo Vandré. Esta última dizia a que viera logo nos primeiros versos. Os generais, claro, vestiram a carapuça:

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar/ eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar.

O recado da música não camuflava a crítica: Porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata / Mas com gente é diferente.

Dois anos depois, Vandré seria mais explícito e o resto é história e canção: Vem, vamos embora que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Nas escolas, nas ruas, campos, nas construções / Somos todos soldados armados ou não.

A canção tem um verso que fala das flores vencendo os canhões. A ditadura não gostou dessa contrarrevoluçãozinha "paz e amor" e o desconforto na caserna foi publicado na revista Veja ( 9/10/1968): “Essa música é atentadora à soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas e não deveria nem mesmo ser inscrita" [no festival de música].

O regime militar preferia (e encomendava) canções “patrióticas” parecidas com Eu te amo, meu Brasil, cantada pela dupla Dom & Ravel:

As praias do Brasil ensolaradas / O chão onde o país se elevou / A mão de Deus abençoou / Mulher que nasce aqui tem muito mais amor.

O céu do meu Brasil tem mais estrelas / O sol do meu país, mais esplendor..

O ufanismo é de uma ignorância sem tamanho: Mulher aqui tem mais amor do que na Espanha? O sol brilha mais aqui do que no Egito? Fortalecia-se o mito do Brasil que “vai pra frente”, de uma gente “guerreira”, de uma natureza abençoada. E ainda obrigavam a gente inocente cantar isso na escola. Aliás, o colégio era um criadouro de ufanistinhas.

O cantor Luiz Ayrão foi censurado porque aproveitou o 13º aniversário do golpe militar (chamado de “Revolução de 64” nos livros didáticos da época) para prestar uma “homenagem”. Teve de dizer que a música era sobre um casal em crise:

Treze anos eu te aturo e não agüento mais / Não há Cristo que suporte e eu não suporto mais / Treze anos me seguro e agora não dá mais / Se treze é minha sorte, vai, me deixa em paz

A mão de ferro da censura mandava alterar letras, suprimir partes, recolher discos e proibir a execução de certas músicas nas rádios. O compositor vivia de metáfora. Ou então não sobrevivia.

Canções de protesto podem contribuir para a politização, mas não mudam o mundo nem revolucionam o sistema político-econômico de um país. Mas parece que os governantes não pensam assim. E tremem de ódio e medo de uma canção.

O homem brandindo o violão na foto é o cantor Sérgio Ricardo nos anos 60.

03 Setembro, 2010

as três criações de Deus


Não fui criacionista a minha vida inteira. Não se surpreenda. Aquele que nunca chegou a pensar (nem digo acreditar) que o mundo pode ter vindo a existir de uma forma, digamos, não-bíblica não é desse planeta. Quem nunca duvidou que atire a primeira banana!

A dúvida não é um problema. Ficar paralisado pela dúvida, sim; passar a vida indeciso repetindo para si a mãe hamletiana de todas as dúvidas: ser ou não ser. Duvidar, questionar, perguntar, tudo isso é humano. Nossos ossos são dúvida, nossa carne é dúvida, nosso pensamento é pergunta. E como perguntar não ofende...

Mas há algo nessa breve história da dúvida que precisa ser contada. Minhas dúvidas vão se apagando na medida em que acende a certeza da centelha divina da criação que há em mim. Quando eu vejo um bebê sendo gestado no mar amniótico da tranquilidade, eu penso: há um Criador. Quando eu olho para a rotina da Terra a girar feito bailarina incansável, eu acredito: há um Criador. Quando eu contemplo a tapeçaria celeste disposta como teto sobre mim, eu não tenho dúvidas: há um Criador.

O Gênesis, o livro dos começos, nos conta que a criação do homem e do mundo ocorreu em sete dias literais. Houve tarde e manhã e aquela foi a primeira criação de Deus. E Ele viu que tudo era bom.

Depois, a perfeita natureza foi desmantelada pela foice afiada do pecado nas mãos do pecador cego. Mas se os animais não se atacavam e se devoravam, como eles passaram a saber que um era mais forte do que outro, que este devia fugir daquele? O equilíbrio edênico da criação teve, suponho, que ser reequilibrado. Deus teria que refazer suas criaturas, providenciando o ainda perfeito ecossistema que conhecemos? Se assim foi, esta teria sido a segunda criação de Deus.

Todo o estudo criacionista, porém, cairia por terra se não fosse por um último e importante detalhe: a restauração do ser humano e da sua casa-mundo. Por isso a Bíblia não acaba no Gênesis nem nos quatro evangelhos. O Apocalipse parece o livro dos finais, mas na verdade é o livro dos recomeços. Nesse livro aprendi que a existência de um Deus criador só faz sentido na recriação de tudo. E essa será a terceira criação de Deus.


John Baldwin escreveu melhor no artigo "Deus, o pardal e a jiboia esmeraldina" (via @walterdossantos)

30 Agosto, 2010

a tradição do novo e a novidade do velho

Há duas semanas assisti a uma apresentação do cantor adventista Leonardo Gonçalves no sábado à tarde. Muita gente veio assisti-lo também. Seus poemas e canções são fartamente conhecidos. Sua voz com melismas e agudos, também. O que, talvez, algumas pessoas ainda não conheciam era o modelo bastante espiritual de sua apresentação daquele dia. Quem foi assistir a um show acabou participando de um culto.

O repertório alternava as canções com a leitura e comentários de trechos bíblicos. Aliás, a Bíblia esteve o tempo todo aberta em uma estante a frente do cantor. Antes da última música, ele falou/pregou à congregação, fez um apelo e terminou com uma oração cantada, o que inibiu completamente qualquer manifestação de histeria de fã. Sua capacidade de atração jovem é notável, porém, mais notável ainda foi sua postura de mensageiro da Palavra. Algumas palavras de um cantor às vezes têm mais repercussão na mente de um jovem do que o sermão inteiro de um pastor. É grande a responsabilidade dos cantores que professam levar o evangelho por meio da música.

Há uma semana assisti a uma entrevista do pastor adventista Alejandro Bullón no sábado à tarde. Muita gente veio assisti-lo também. Seus livros e sermões são fartamente conhecidos. Sua voz emocionada e com sotaque “portunhol”, também. O que, talvez, muita gente ainda não conhecia era o quanto este pastor já aposentado está envolvido com a modernização dos métodos evangelísticos. Quem achava que ele só pregava e escrevia acabou sabendo que ele produz filmes e está se formando como roteirista.

O repertório dos filmes está centrado no cristianismo bíblico. São histórias para captar a atenção de homens e mulheres para o sentido de Deus em suas vidas. Na entrevista, o pastor Bullón preocupava-se com o número de pessoas que só conhecem a mensagem cristã por meio de filmes e livros que distorcem a Bíblia. Suas produções filmadas ou escritas pretendem contar histórias comuns ou extraordinárias segundo uma visão bíblica mais correta.

O jovem cantor apresentou-se apoiado na velha e feliz história de salvação. A tradição bíblica na musicalidade da juventude. O velho pregador apresentou-se com uma mente jovem, plugada em transmitir a velha e feliz história da rendenção. A novidade dos métodos na maturidade dos anos.

Um músico cristão usou o talento são para falar da sã doutrina. Um pregador mostrou que o peso da idade envelhece o corpo, mas a mente a serviço de Deus segue renovada e lúcida.

25 Agosto, 2010

alan kardec no país das maravilhas

Carta de R. C. Cardoso à revista Veja sobre a matéria “Espiritismo de resultados” (4/8/10): “Apesar de a novela [Escrito nas Estrelas] apresentar fatos que divergem da doutrina kardecista, é muito bom que a televisão mostre programas que tratam do espiritismo com seriedade, e não como instrumento para deboche e críticas sem fundamento”.

Alguém lembra de uma novela em que o cristianismo não foi pintado com deboche? Em novelas, o padre bom é o liberalizante e o padre mau é o negociante; já o personagem evangélico é o estereótipo do fanático que vocifera a Bíblia na praça, que é ríspido com a filha enamorada, que ouve gospel em som alto e por aí vai.

Conflitos familiares, veleidades conjugais, banalização do ódio, tudo isso faz parte do cardápio noveleiro que, agora e na hora da queda de audiência, sempre apela para a violência física da troca de socos e pontapés entre rivais e casais. Mas as novelas da Rede Globo nunca foram anticristãs no passado tanto quanto são pró-espiritualistas hoje.

O espiritismo impera nas histórias globais desde os famosos “Caso: Verdade” nos anos 70. O "Fantástico" costumava encerrar o domingo do espectador com histórias do aquém-do-além. Na época, as novelas já estavam levando o evangelho kardecista ao respeitável público. De uma forma até ingênua, mas nunca com deboche, fazendo um curioso contraste com o bombardeio de filmes com temas satanistas que enxamearam a década de 70 (O Exorcista, A Profecia, Irmãs Diabólicas etc).

Era o início dos anos 90. Paulo Coelho começava a fazer sucesso com seus livros meloesotéricos e Hollywood domesticava o espiritualismo com Ghost. O respeitável e agora espiritualizado público estava pronto para fazer A Viagem e ver todos os congêneres que se sucederam desde então.

Ah, mas novela é só um passatempo, um lençol de fantasma. Não é o que pensa Geraldo Campetti, da Federação Espírita Brasileira, que diz: “A novela ajuda a semear nossa crença”.

A novela global é o país das maravilhas do espiritismo. Não adianta cortar a cabeça de ninguém. O ninguém vaga e volta para atormentar ou aconselhar os vivos. Se vivo estivesse, Alan Kardec poderia achar o formato de gosto duvidoso, mas aprovaria o conteúdo.

Mais:

Ghost não se discute

23 Agosto, 2010

Jesus é um plágio de mitos?

Mal Cristo tinha ascendido aos céus e já havia gente duvidando da história toda. Se na época era assim, dois mil anos depois parece muito mais fácil ser Tomé. Antigamente, duvidava-se da espiritualidade de Jesus (não, ele não era um ser divino, diziam). Mais recentemente, questiona-se a carnalidade de Jesus (não, ele nem mesmo existiu). Estão tentando inscrever Jesus no museu imaginário dos mitos da humanidade.

Um vídeo intitulado Zeitgeist procura demonstrar que Cristo é um plágio de vários mitos da Antiguidade. No entanto, segundo o especialista Chris Forbes (enttrevistado no vídeo abaixo), a afirmação de que Jesus seria um plágio de um punhado de historinhas pra egípcio dormir não se sustenta. Ou seja, a tentativa de fazer do Cristo histórico uma lenda antiga é, na verdade, uma lenda moderna. Audioveja e entenda suas razões. Procure ler o que dizem outros especialistas a respeito da autenticidade do Jesus histórico, como o texto que indico logo abaixo do vídeo.



Mais:
Jesus, um plágio?: artigo na Revista Kerygma

(Dica de @lzgstv - L. Gustavo de Souza)

20 Agosto, 2010

o colapso do movimento evangélico

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce, passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.

É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.

Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

O artigo na íntegra você lê aqui.

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Nota na Pauta: o movimento neopentecostal, com suas muitas ramificações e comunidades, já está sendo chamado de pseudopentecostal, por estar se passando por pentecostal sem de fato sê-lo. Os escândalos financeiros e os cultos milagreiros tem dado um cunho pejorativo ao termo evangélico, fazendo de Jesus uma marca comercial de camiseta, maltratando a sã doutrina e erguendo estranhas catedrais. Cristo tem ovelhas em vários apriscos. Mas muitas ovelhas sinceras de fé estão sendo arrastadas por lobos do comércio e do estelionato travestidos de líderes religiosos.

18 Agosto, 2010

afasta de mim esse cale-se

Durante a ditadura militar, os compositores brasileiros buscavam na metáfora seu recurso para driblar a cerrada marcação da censura. Em 1973, uma música marcaria a "página infeliz da nossa história". Durante um evento realizado pela PolyGram, Chico e Gilberto Gil decidiram cantar uma canção previamente censurada, "Cálice". O refrão era:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
de vinho tinto de sangue

A referência à angústia de Jesus no Getsêmani era apenas de superfície, na escrita. Na fala, o "cálice" soava também como "cale-se". A referência era à angústia do artista e do intelectual, tesourados, amordaçados, silenciados.

Quando Chico e Gil começaram a cantar essa música, o censor junto à mesa de som (era uma praxe a presença do censor nos shows) mandou desligar os microfones. Chico Buarque ia de um microfone a outro tentando cantar "cálice/cale-se", e sendo tragicomicamente "calado".

Cantar uma música de protesto censurada era uma forma de desobediência civil e pacífica. Ao contrário da "companheirada" que sonhava em substituir uma ditadura por outra. Alguns daqueles que foram presos e/ou exilados pelo regime militar hoje militam mais pacificamente, a exemplo dos dois concorrentes à presidência do país.

No entanto, políticos, locutores e celebridades em geral não escapam da mordaça virtual de um "CALA A BOCA". Os internautas esquecem que o país já superou os dias cinzentos de mordaça pública e notória. De fato, parece que aquele tempo é uma passagem desbotada da memória das nossas novas gerações, pra citar outra música de Chico Buarque. No twitter, o imperativo do cala-boca soa como toda ditadura: autoritária e mal-educada. Afastem esse cale-se da internet. Deixem os candidatos falarem. Até porque político e peixe morrem pela boca.